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Desconstrução

Em um dia desses, ela saiu através da porta da minha casa dizendo que não retornaria mais. Hoje, esse adeus completa alguns anos e o bom disso é que não sinto nada. Na verdade sinto: indiferença. Por a data estar fazendo aniversário, consigo lembrar de alguns flashes de pessoas que passaram pela minha vida e me aconselharam sobre situações assim. Elas diziam que pessoas partem e não devemos impedi-las. Além de me alertarem que, às vezes, é nosso dever parar de fazer questão e, olhe que não estou falando de casos amorosos. Falo sobre as relações com amigos, com a família, com nossos professores e vizinhos que, construímos tão fortes, por uma ótica, mas tão frágeis, por outra. Sobre essas relações, elas me diziam que chegaria um dia em que eu simplesmente pararia de ligar para o que fazem para mim. Elas falavam que um dia eu chegaria em casa e não teria mais que olhar o celular, com a esperança de ver uma mensagem -que satisfizesse meu ego, sabemos. Para elas, esse dia seria como um div...

"O que eu quero?!" - Tim Maia

Quando a noite vem, eu penso que  Nessas curvas de estradas mal conhecidas Vagamos em busca de uma correspondência social Pode ser uma pessoa, na pior das hipóteses, ou um lugar, na melhor delas Vagamos por anos entrando e saindo de vidas que nos ensinam, mas não preenchem Vagamos procurando aquilo que nos sossegue. Hoje eu entendo Tim Maia, não só ele queria sossego... Estamos todos sob o resplandecer da eletricidade  Sob a efervescência do entusiasmo Sob o sol queimando a pele Mas no fundo Nos domingos de manhã nos quais você acorda só, Na volta da festa, Na hora de ir dormir, Nessas horas queremos sossego Paz de espírito Completude Autossuficiência, talvez? Vagamos, virando esquinas e mais esquinas, frequentando bares e bares, com o intuito de encontrar uma essência que seja forte e satisfatoriamente suficiente para nos acalmar e passível de colocar nossos monstros para dormir. Hora de acordar,  Bom dia! Fran

Não se engane, meu bem...

Bem, na verdade, ela não está. Ela fala que sim a todos que perguntam se ela está bem.  Afinal de contas, explicar o porquê de não estar bem levaria dias, uma vida inteira talvez. Quando era pequena deixou sua cidade natal e passou a morar em uma desconhecida. Aos doze anos, ela encantou-se pela saia de pregas que ganhara e, por consequência, pela moda, a partir disso.  Aos dezessete conheceu a pessoa que amou, casou e teve um filho.  Anos depois sofreu um acidente traumático, cruel e que sugou todas suas energias.  Ela ficou um ano hospitalizada por conta disso e reconstituiu a face.  Reconstituiu a face de novo,  de novo  e de novo.  Aos vinte e quatro teve um filho.  Mais tarde, separou-se da pessoa que amou  e passou a ser sozinha.  Ela e o filho.  Quando perguntavam: - Como você vai? - Vou bem, obrigada - ela dizia. Frequentou inúmeros cursos sobre moda e tornou-se consultora do assunto.  Não construiu...

sobre um ano bissexto

A gente abre uma vodka e faz um drink daqueles. Já puxamos uma cadeira e sentamos, acendemos um cigarro talvez, esticamos o braço e as pernas e olhamos para fora para onde tenha um céu que te dê respostas às perguntas que te atormentam às perguntas que nunca responderam ou souberam responder daquelas do gênero de "Deus existe?" de natuereza inconsciente, existencialistas Então a gente faz outro drink, senta na mesma cadeira e espera o dia tomar outra forma, espera a madrugada, espera uma ligação, espera alguém. Os três sempre tardam em chegar. A gente acende outro cigarro, arruma o cabelo, troca de sapato ou de camisa, abre o botão da calça, e olha pra fora ninguém ainda respondeu. Outro dia a gente faz a mesma coisa, mais uma vodka, um drink, um cigarro, uma ligação não atendida, uma pergunta não respondida. Fazemos isso por anos, com o intuito de entender o sentido desse mundo Tão difícil entender sua expansão, sua extensão, sua complexidade, suas cu...

Vamos ser?

Ser capaz de enxergar que um dia cinzento também tem vida, de sentir que a chuva nem sempre molha, que o que parece ser quente, às vezes, é frio, que o vento nem sempre traz tempestade. Ser capaz de ver que as flores murchas também têm sua beleza. Somos treinados para apreciar o belo e o que não é, por sua vez, cai em segundo plano. Perdemos tanta coisa por conta desse hábito. Sinto muito. Precisamos que nos ensinem de novo e de novo, quantas vezes forem necessárias, para não mais ver a natureza como verde e azul, como só floresta e mar, mas ver que o que integra a sua composição é tão importante e significante quanto o seu contexto e aspecto geral. Sejamos críticos. Fran